
A presa que pensa
poemas
Os poemas de Anna Wickham entram pela porta da cozinha. Neles, as horas são freiras que convocam a mulher aos ofícios da casa, o espartilho esmaga o corpo e um marido cansado deseja uma esposa tão controlada quanto ele — enquanto a dele atravessa a noite negra como tinta. Os objetos domésticos deixam de ser cenário e revelam o preço de amar, desejar e conservar a própria liberdade.
Com o ouvido de quem estudou canto, Wickham constrói poemas que ora se aproximam da canção, ora do diálogo ou da sentença mordaz. Sua voz muda de posição sem aviso: é esposa, marido, amante, conquistador, presa e caçador. A poeta desafia as convenções herdadas da moral vitoriana, mas tampouco poupa a si mesma. Deseja a virtude e teme que ela a faça escrava. Não escreve para resolver contradições; escreve para expô-las.
No poema que dá título ao livro, a mulher trapaceia, “como as mulheres sabem”, e mantém o amor longe do rosto: não por pudor, por cálculo. Wickham pergunta quem limpa as panelas, quem pode pensar em voz alta e quanto custa a uma mulher ser amada — perguntas que um século não resolveu.
Venda e envio por Uiclap