Capa de Água Rebelde, edição Síngula

Água Rebelde

poemas

A água do jarro molha a palavra, e a palavra chove. Desde o começo, estes poemas se movem pelo que escorre, pelo que encharca, pelo que não cabe nos vasos.

A mulher que fala aqui acorda com verões e bebe invernos. Pendura a roupa de dormir na ponta da lua minguante e sai nua, pulando estrelas. Quer plantar musgo e hera em paredes que secaram. Encontra um homem que “aqui já estava / Mas não”, cola o rosto no tronco de uma figueira, caminha com ele por Sintra. Perde-o para o oceano. Perde o pai. Junta cristais partidos com unguento e sangue e os guarda no ventre.

Cada poema ocupa a página a seu modo. Os versos descem degrau por degrau, uma palavra é enterrada de cabeça para baixo, a gema escorre até o pé da folha, a oração ao pai se reza em versículos. Quando a língua não basta, Liliana Caldeira a faz chover novas palavras: nuventou, chuvochorei, me enchenteio.

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